PERTURBADORAS

MACONHA


THC (Tetraidrocanabinol)
Hashishi, Bangh,Ganja, Diamba,
Marijuana, Marihiana




Definição e histórico

A maconha é o nome dado aqui no Brasil a uma planta chamada cientificamente de
Cannabis sativa. Em outros países, ela recebe diferentes nomes, como os mencionados
no título deste capítulo. Já era conhecida há pelo menos 5000 anos, sendo utilizada
quer para fins medicinais, quer para “produzir risos”. Talvez a primeira menção
da maconha em nossa língua tenha sido em um escrito de 1548, no qual está dito
no português daquela época: “e já ouvi a muitas mulheres que, quando hião ver
algum homem, para estar choquareiras e graciosas a tomavão”.
Até o início do século XX, a maconha era considerada em vários países, inclusive
no Brasil, um medicamento útil para vários males. Mas também já era utilizada
para fins não-médicos por pessoas desejosas de sentir “coisas diferentes”, ou mesmo
que a utilizavam abusivamente. Em conseqüência desse abuso, e de um certo exagero
sobre seus efeitos maléficos, a planta foi proibida em praticamente todo o
mundo ocidental, nos últimos 50 a 60 anos. Mas, atualmente, graças às pesquisas
recentes, a maconha (ou substâncias dela extraídas) é reconhecida como medicamento
em pelo menos duas condições clínicas: reduz ou abole náuseas e vômitos
produzidos por medicamentos anticâncer e tem efeito benéfico em alguns casos de
epilepsia (doença que se caracteriza por convulsões ou “ataques”). Entretanto, é
bom lembrar que a maconha (ou as substâncias extraídas da planta) tem também
efeitos indesejáveis que podem ser prejudiciais.
O THC (tetraidrocanabinol) é uma substância química fabricada pela própria
maconha, sendo o principal responsável pelos efeitos desta. Assim, dependendo da
quantidade de THC presente (o que pode variar de acordo com solo, clima, estação
do ano, época de colheita, tempo decorrido entre a colheita e o uso), a maconha
pode ter potência diferente, isto é, produzir mais ou menos efeitos. Essa variação
nos efeitos depende também da própria pessoa que fuma a planta, pois todos sabemos
que há grande variação entre as pessoas, e de fato, ninguém é igual a ninguém!
Assim, a dose de maconha insuficiente para um pode produzir efeito nítido em
outro e até forte intoxicação em um terceiro.

Efeitos da maconha

Para o bom entendimento, é melhor dividir os efeitos que a maconha produz sobre
o homem em físicos (ação sobre o próprio corpo ou partes dele) e psíquicos (açãosobre a mente). Esses efeitos sofrerão mudanças de acordo com o tempo de uso que
se considera, ou seja, os efeitos são agudos (isto é, quando decorrem apenas algumas
horas após fumar) e crônicos (conseqüências que aparecem após o uso continuado
por semanas, ou meses ou mesmo anos).
Os efeitos físicos agudos são muito poucos: os olhos ficam meio avermelhados
(o que em linguagem médica se chama hiperemia das conjuntivas), a boca fica seca
(e lá vai outra palavrinha médica antipática: xerostomia – é o nome difícil que o
médico dá para boca seca) e o coração dispara, de 60 a 80 batimentos por minuto
pode chegar a 120 a 140 ou até mesmo mais (taquicardia).
Os efeitos psíquicos agudos dependerão da qualidade da maconha fumada e da
sensibilidade de quem fuma. Para uma parte das pessoas, os efeitos são uma sensação
de bem-estar acompanhada de calma e relaxamento, sentir-se menos fatigado,
vontade de rir (hilariedade). Para outras pessoas, os efeitos são mais para o lado
desagradável: sentem angústia, ficam aturdidas, temerosas de perder o controle
mental, trêmulas, suadas. É o que comumente chamam de “má viagem” ou “bode”.
Há, ainda, evidente perturbação na capacidade da pessoa em calcular tempo e
espaço e um prejuízo de memória e atenção.
Assim, sob a ação da maconha, a pessoa erra grosseiramente na discriminação
do tempo, tendo a sensação de que se passaram horas quando na realidade foram
alguns minutos; um túnel com 10m de comprimento pode parecer ter 50 ou 100m.
Quanto aos efeitos na memória, eles se manifestam principalmente na chamada
memória a curto prazo, ou seja, aquela que nos é importante por alguns instantes.
Dois exemplos verídicos ajudam a entender esse efeito: uma telefonista de PABX em
um hotel (que ouvia um dado número pelo fone e no instante seguinte fazia a ligação),
quando sob ação da maconha, não era mais capaz de lembrar-se do número
que acabara de ouvir. O outro caso é o de um bancário que lia em uma lista o número
de um documento que tinha de retirar de um arquivo, e que sob ação da maconha
já havia esquecido o número quando chegava em frente ao arquivo.
Pessoas sob esses efeitos não conseguem, ou melhor, não deveriam executar
tarefas que dependem de atenção, bom senso e discernimento, pois correm o risco
de prejudicar outros e/ou a si próprio. Como exemplo disso: dirigir carro, operar
máquinas potencialmente perigosas.
Aumentando-se a dose e/ou dependendo da sensibilidade, os efeitos psíquicos agudos
podem chegar até a alterações mais evidentes, com predominância de delírios e
alucinações. Delírio é uma manifestação mental pela qual a pessoa faz um juízo errado
do que vê ou ouve; por exemplo, sob ação da maconha uma pessoa ouve a sirene de
uma ambulância e julga que é a polícia que vem prendê-la; ou vê duas pessoas conversando
e pensa que ambas estão falando mal ou mesmo tramando um atentado contra
ela. Em ambos os casos, essa mania de perseguição (delírios persecutórios) pode levar
ao pânico e, conseqüentemente, a atitudes perigosas (“fugir pela janela”, agredir como
forma de “defesa” antecipada contra a agressão que julga estar sendo tramada). Já a alucinação
é uma percepção sem objeto, isto é, a pessoa pode ouvir a sirene da polícia ouver duas pessoas conversando quando não existe nem sirene nem pessoas. As alucinações
podem também ter fundo agradável ou terrificante.
Os efeitos físicos crônicos da maconha já são de maior gravidade. De fato, com
o uso continuado, vários órgãos do corpo são afetados. Os pulmões são um exemplo
disso. Não é difícil imaginar como ficarão esses órgãos quando passam a receber
cronicamente uma fumaça que é muito irritante, dado ser proveniente de um
vegetal que nem chega a ser tratado como o tabaco comum. Essa irritação constante
leva a problemas respiratórios (bronquites), aliás, como ocorre também com o
cigarro comum. Mas o pior é que a fumaça da maconha contém alto teor de alcatrão
(maior mesmo que na do cigarro comum) e nele existe uma substância chamada
benzopireno, conhecido agente cancerígeno; ainda não está provado cientificamente
que o fumante crônico de maconha está sujeito a adquirir câncer dos pulmões
com maior facilidade, mas os indícios, em animais de laboratório, de que
assim pode ser são cada vez mais fortes.
Outro efeito físico adverso (indesejável) do uso crônico da maconha refere-se à
testosterona. Esta é o hormônio masculino que, como tal, confere ao homem maior
quantidade de músculos, voz mais grossa, barba, e também é responsável pela fabricação
de espermatozóides pelos testículos. Já existem muitas provas de que a maconha
diminui em até 50 a 60% a quantidade de testosterona. Conseqüentemente,
o homem apresenta um número bem reduzido de espermatozóides no líquido espermático
(em medicina essa diminuição chama-se oligospermia), o que leva à infertilidade.
Assim, o homem terá mais dificuldade de gerar filhos. Esse é um efeito que
desaparece quando a pessoa deixa de fumar a planta. É também importante dizer
que o homem não fica impotente ou perde o desejo sexual, mas apresenta esterilidade,
isto é, fica incapacitado de engravidar sua companheira. Há ainda a considerar
os efeitos psíquicos crônicos produzidos pela maconha. Sabe-se que seu uso continuado
interfere na capacidade de aprendizagem e memorização e pode induzir a
um estado de amotivação, isto é, não sentir vontade de fazer mais nada, pois tudo
fica sem graça e sem importância. Esse efeito crônico da maconha é chamado de síndrome
amotivacional. Além disso, a maconha pode levar algumas pessoas a um
estado de dependência, isto é, elas passam a organizar sua vida de maneira a facilitar
seu vício, e tudo o mais perde seu real valor.
Finalmente, há provas científicas de que se o indivíduo tem uma doença psíquica
qualquer, mas que ainda não está evidente (a pessoa consegue “se controlar”) ou
a doença já apareceu, mas está controlada com medicamentos adequados, a maconha
piora o quadro. Ou faz surgir a doença, isto é, a pessoa não consegue mais “se
controlar”, ou neutraliza o efeito do medicamento e ela passa a apresentar novamente
os sintomas da enfermidade. Esse fato tem sido descrito com freqüência na
doença mental chamada esquizofrenia. Em um levantamento feito entre estudantes
do ensino fundamental e do ensino médio das dez maiores cidades do país, em
1997, 7,6% declararam que já haviam experimentado maconha e 1,7% declararam
fazer uso dela pelo menos seis vezes por mês.

COGUMELOS E PLANTAS ALUCINÓGENAS






Definição e histórico

A palavra alucinação significa, em linguagem médica, percepção sem objeto; isto
é, a pessoa em processo de alucinação percebe coisas sem que elas existam.
Assim, quando uma pessoa ouve sons imaginários ou vê objetos que não existem,
ela está tendo uma alucinação auditiva ou uma alucinação visual.
As alucinações podem aparecer espontaneamente no ser humano em casos de
psicoses, e entre estas a mais comum é a doença mental chamada esquizofrenia.
Também podem ocorrer em pessoas normais (que não apresentam doença mental)
que tomam determinadas substâncias ou drogas alucinógenas, isto é, drogas que
“geram” alucinações. Essas drogas são também chamadas de psicoticomiméticas
por “imitar” ou “mimetizar” um dos mais evidentes sintomas das psicoses – as alucinações.
Alguns autores também as chamam de psicodélicas. A palavra psicodélica
vem do grego (psico = mente e delos = expansão) e é utilizada quando a pessoa
apresenta alucinações e delírios em certas doenças mentais ou por ação de drogas.
É óbvio que essas alterações não significam expansão da mente.
A alucinação e o delírio nada têm de aumento da atividade ou da capacidade
mental; ao contrário, são aberrações, perturbações do perfeito funcionamento do
cérebro, tanto que são características das chamadas psicoses.
Um grande número de drogas alucinógenas vem da natureza, principalmente de
plantas. Estas foram “descobertas” por seres ancestrais que, ao sentir seus efeitos
mentais, passaram a considerá-las “plantas divinas”, isto é, que faziam com que
quem as ingerisse recebesse mensagens divinas, dos deuses. Assim, até hoje em culturas
indígenas de vários países o uso dessas plantas alucinógenas tem esse significado
religioso.
Com o progresso da ciência, várias substâncias foram sintetizadas em laboratório
e, dessa maneira, além dos alucinógenos naturais, hoje em dia têm importância
também os alucinógenos sintéticos, dos quais o LSD-25 é o mais representativo
(este assunto será abordado no capítulo seguinte).
Há ainda a considerar que alguns desses alucinógenos agem em doses muito
pequenas e praticamente só atingem o cérebro e, portanto, quase não alteram
nenhuma outra função do corpo: são os alucinógenos propriamente ditos ou aluci-nógenos primários. O THC (tetraidrocanabiol) da maconha, por exemplo, é um
alucinógeno primário, e está apresentado em outro capítulo. Mas existem outras
drogas que também são capazes de atuar no cérebro, produzindo efeitos mentais,
mas somente em doses que afetam de maneira importante várias outras funções: são
os alucinógenos secundários. Entre estes últimos, podemos citar uma planta, a
Datura, conhecida no Brasil sob vários nomes populares e sob o nome comercial
Artane® (sintético).

Vegetais alucinógenos conhecidos no Brasil

Nosso país, principalmente em decorrência de sua imensa riqueza natural, possui
várias plantas alucinógenas. As mais conhecidas são apresentadas a seguir.

Cogumelos

O uso de cogumelos ficou famoso no México, onde desde antes de Cristo já eram
utilizados pelos nativos daquela região. Ainda hoje, sabe-se que o “cogumelo sagrado”
é usado por alguns pajés. Essa planta recebe o nome científico de Psilocybe mexicana
e dela pode ser extraída uma substância de poder alucinógeno: a psilocibina.
No Brasil são encontradas pelo menos duas espécies de cogumelos alucinógenos,
uma delas é o Psilocybe cubensis e a outra, espécie do gênero Paneoulus.

Jurema

O vinho de jurema, preparado à base da planta brasileira Mimosa hostilis e chamado
popularmente de jurema, é usado pelos remanescentes índios e caboclos do
Brasil. Os efeitos desse vinho são muito bem descritos por José de Alencar no
romance Iracema. Além de conhecido pelo interior do Brasil, só é utilizado nas cidades
em rituais de candomblé, por ocasião da passagem de ano, por exemplo. A jurema
sintetiza uma potente substância alucinógena, a dimetiltriptamina ou DMT,
responsável pelos efeitos.

Mescal ou Peyot

Trata-se de um cacto, também utilizado desde remotos tempos, na América Central,
em rituais religiosos, que reproduz a substância alucinógena mescalina. Não existe
no Brasil.

Caapi e chacrona

São duas plantas alucinógenas utilizadas conjuntamente sob a forma de uma bebida,
ingerida no ritual do Santo Daime, Culto da União Vegetal e de várias outras seitas.
Esse ritual está bastante difundido no Brasil (existe nos Estados do Norte, São
Paulo, Rio de Janeiro etc.), e seu uso em nossa sociedade teve origem entre os índios
da América do Sul. No Peru, a bebida preparada com as duas plantas é chamada
pelos índios quéchas de Ayahuasca, que quer dizer “vinho da vida”. As alucinações produzidas pela bebida são chamadas de mirações, e os guias dessa religião
procuram “conduzi-las” para dimensões espirituais da vida.
Uma das substâncias sintetizadas pelas plantas é a DMT, já comentada em relação
à jurema.

Efeitos no cérebro

Já foi acentuado que os cogumelos e as plantas analisados anteriormente são alucinógenas,
isto é, induzem a alucinações e delírios. É interessante ressaltar que esses
efeitos são muito maleáveis, ou seja, dependem de várias condições, como sensibilidade
e personalidade do indivíduo, expectativa que a pessoa tem sobre os efeitos,
ambiente, presença de outras pessoas etc., como a bebida do Santo Daime.
As reações psíquicas são ricas e variáveis. Às vezes, são agradáveis (“boa viagem”)
e a pessoa se sente recompensada pelos sons incomuns, cores brilhantes e
pelas alucinações. Em outras ocasiões, os fenômenos mentais são de natureza desagradável,
visões terrificantes, sensações de deformação do próprio corpo, certeza de
morte iminente etc. São as “más viagens”.
Tanto as “boas” como as “más” viagens podem ser conduzidas pelo ambiente, pelas
preocupações anteriores (o usuário freqüente sabe quando não está de “cabeça boa”
para tomar o alucinógeno) ou por outra pessoa. Esse é o papel do “guia” ou “sacerdote”
nos vários rituais religiosos folclóricos, que, no ambiente do templo, os cânticos
etc., são capazes de conduzir os efeitos mentais para o fim desejado.

Efeitos sobre outras partes do corpo

Os sintomas físicos são pouco salientes, pois são alucinógenos primários. Podem
ocorrer dilatação das pupilas, sudorese excessiva, taquicardia, náuseas e vômitos,
estes últimos mais comuns com a bebida do Santo Daime.

Aspectos gerais

Como ocorre com quase todas as substâncias alucinógenas, praticamente não há
desenvolvimento de tolerância; também comumente não induzem dependência e
não ocorre síndrome de abstinência com o cessar do uso. Um dos problemas preocupantes
em relação ao consumo desses alucinógenos é a possibilidade, felizmente
rara, de a pessoa desenvolver delírios persecutórios, de grandeza ou acessos de pânico e, em virtude disso, tomar atitudes prejudiciais a si e aos outros.

PERTURBADORES SINTÉTICOS




(Alucinógenos)
LSD-25 (ácido)




Definição e histórico

Perturbadores ou alucinógenos sintéticos são substâncias fabricadas (sintetizadas)
em laboratório, não sendo, portanto, de origem natural, e que são capazes de
provocar alucinações no ser humano. Vale a pena recordar um pouco o significado
de alucinação: “é uma percepção sem objeto”. Isso significa que, mesmo sem ter
um estímulo (objeto), a pessoa pode sentir, ver, ouvir. Como exemplo, se uma pessoa
ouve uma sirene tocando e há mesmo uma sirene perto, ela está normal; agora,
se ela ouve a sirene e não existe nenhuma tocando, então está alucinando ou tendo
uma alucinação auditiva. Da mesma maneira, sob a ação de uma droga alucinógena,
ela pode ver um animal na sala (por exemplo, um elefante) sem que, logicamente,
exista o elefante, ou seja, a pessoa tem uma alucinação visual.
O LSD-25 (abreviação de dietilamina do ácido lisérgico) é, talvez, a mais potente
droga alucinógena existente. É utilizado habitualmente por via oral, embora possa
ser misturado ocasionalmente com tabaco e fumado. Alguns microgramas (micrograma
é um milésimo de um miligrama que, por sua vez, é um milésimo de um
grama) são suficientes para produzir alucinações no ser humano. O efeito alucinógeno
do LSD-25 foi descoberto em 1943 pelo cientista suíço Hoffman, por acaso,
ao aspirar pequeníssima quantidade de pó por descuido em seu laboratório. Eis o
que ele descreveu: Os objetos e o aspecto dos meus colegas de laboratório pareciam sofrer
mudanças ópticas. Não conseguindo me concentrar em meu trabalho, num estado de
sonambolismo, fui para casa, onde uma vontade irresistível de me deitar apoderou-se de
mim. Fechei as cortinas do quarto e imediatamente caí em um estado mental peculiar,
semelhante à embriaguez, mas caracterizado por imaginação exagerada. Com os olhos
fechados, figuras fantásticas de extraordinária plasticidade e coloração surgiram diante de
meus olhos. Seu relato detalhado das experiências alucinatórias levou a uma intensa
pesquisa dessa classe de substâncias, culminando, nas décadas de 1950 e 1960,
com seu uso psiquiátrico, embora com resultados pouco satisfatórios.
A MDMA (3,4 metilenodioxometanfetamina), conhecida popularmente como
êxtase, é uma outra droga do grupo dos alucinógenos sintéticos que será abordada.

Efeitos no cérebro

O LSD-25 atua produzindo uma série de distorções no funcionamento do cérebro,
trazendo como conseqüência uma variada gama de alterações psíquicas.
A experiência subjetiva com o LSD-25 e outros alucinógenos depende da personalidade
do usuário, de suas expectativas quanto ao uso da droga e do ambiente
onde esta é ingerida. Enquanto alguns indivíduos experimentam um estado de excitação
e atividade, outros se tornam quietos e passivos. Sentimentos de euforia e
excitação (“boa viagem”) alternam-se com episódios de depressão, ilusões assustadoras
e sensação de pânico (“má viagem”, “bode”).
O LSD-25 é capaz de produzir distorções na percepção do ambiente – cores, formas
e contornos alterados –, além de sinestesias, ou seja, estímulos olfativos e táteis
parecem visíveis e cores podem ser ouvidas.
Outro aspecto que caracteriza a ação do LSD-25 no cérebro refere-se aos delírios.
Estes são o que chamamos “falsos juízos da realidade”, isto é, há uma realidade,
um fato qualquer, mas a pessoa delirante não é capaz de avaliá-la corretamente.
Os delírios causados pelo LSD geralmente são de natureza persecutória ou de grandiosidade.

Efeitos sobre outras partes do corpo

O LSD-25 tem poucos efeitos sobre outras partes do corpo. Logo de início, 10 a 20
minutos após tomá-lo, o pulso pode ficar mais rápido, as pupilas podem ficar dilatadas,
além de ocorrer sudoração, e a pessoa pode sentir-se com uma certa excitação.
Muito raramente, têm sido descritos casos de convulsão. Mesmo doses muito altas
de LSD não chegam a intoxicar seriamente uma pessoa, do ponto de vista físico.

Efeitos tóxicos

O perigo do LSD-25 não está tanto em sua toxicidade para o organismo, mas sim
no fato de que, pela perturbação psíquica, há perda da habilidade de perceber e avaliar
situações comuns de perigo. Isso ocorre, por exemplo, quando a pessoa com
delírio de grandiosidade se julga com capacidades ou forças extraordinárias, sendo
capaz de, por exemplo, voar, atirando-se de janelas; com força mental suficiente
para parar um carro em uma estrada, ficando na sua frente; andar sobre as águas,
avançando mar a dentro.
Há também descrições de casos de comportamento violento, gerado principalmente
por delírios persecutórios, como, por exemplo, no caso de o drogado atacar
dois amigos (ou até pessoas estranhas) por julgar que ambos estão tramando contra
ele.
Ainda no campo dos efeitos tóxicos, há também descrições de pessoas que, após
tomarem o LSD-25, passaram a apresentar por longos períodos (o maior que se
conhece é de dois anos) de ansiedade muito grande, depressão ou mesmo acessos
psicóticos. O “flashback” é uma variante desse efeito a longo prazo: semanas ou atémeses após uma experiência com LSD-25, a pessoa repentinamente passa a ter
todos os sintomas psíquicos daquela experiência anterior, e isso sem ter tomado de
novo a droga. O “flashback” é geralmente uma vivência psíquica muito dolorosa,
pois a pessoa não estava procurando ou esperando ter aqueles sintomas, e assim
eles acabam por aparecer em momentos bastante impróprios, sem que ela saiba por
que, podendo até pensar que está ficando louca.

Aspectos gerais

O fenômeno da tolerância desenvolve-se muito rapidamente com o LSD-25, mas
também há desaparecimento rápido com a interrupção do uso. O LSD-25 não leva
comumente a estados de dependência e não há descrição de síndrome de abstinência
se um usuário crônico pára de consumir a droga.
Todavia, o LSD-25, assim como outras drogas alucinógenas, pode provocar
dependência psíquica ou psicológica, uma vez que a pessoa que habitualmente usa
essas substâncias como “remédio para todos os males da vida” acaba por se alienar
da realidade do dia-a-dia, aprisionando-se na ilusão do “paraíso na Terra”.

Situação no Brasil

Esporadicamente se tem notícias acerca do consumo de LSD-25 no Brasil, principalmente
por pessoas das classes mais favorecidas. Embora raramente, a polícia
apreende, vez por outra, parte das drogas trazidas do Exterior.
O Ministério da Saúde não reconhece nenhum uso do LSD-25 (e de outros alucinógenos)
e proíbe totalmente sua produção, comércio e utilização em território
nacional.

ÊXTASE (MDMA)







Definição e histórico

A MDMA (3,4-metilenodioximetanfetamina) foi sintetizada em 1912 e patenteada
em 1914 na Alemanha pela empresa farmacêutica Merck. O propósito dessa síntese
era o de desenvolver um medicamento para diminuir o apetite, no entanto, em
função de sua baixa utilidade clínica, os estudos com essa substância foram abandonados.
Ao fim da década de 1970, a utilidade clínica da MDMA voltou a ser discutida,
agora como um possível auxiliar do processo psicoterapêutico. Alguns psiquiatras
e psicólogos acreditavam que a substância deixava a pessoa mais solta, promovendo
assim uma melhor comunicação e vínculo terapeuta–paciente.
Paralelamente, começou a crescer nos Estados Unidos o uso recreativo da droga,
chamada agora de êxtase, principalmente entre jovens universitários. Temendo o
surgimento de uma nova “era psicodélica” no país, os Estados Unidos decidiram,
em 1985, incluir a MDMA na lista das substâncias proibidas. Essa medida logo foi
seguida pela OMS (Organização Mundial de Saúde), a qual passou a considerar a
MDMA como droga de restrição internacional.
No fim dos anos 80, surgiu em Ibiza, na Espanha, a cena musical e cultural que
deu origem à cultura clubber ou dance. Associado a esse novo conceito musical,
o êxtase começou a ser difundido na Europa, crescendo ao longo da década de
1990, com a popularização da música eletrônica e da cultura dance.
No Brasil, no início dos anos 90 começaram a chegar as primeiras remessas consideráveis
de êxtase vindas da Europa. A partir daí, tem crescido o número de usuários,
bem como a importância dada pelos meios de comunicação ao assunto.

Composição dos comprimidos de êxtase

O êxtase é mais comercializado na forma de comprimido, podendo ainda ser encontrado
na forma de cápsula ou em pó. Diversos outros nomes populares também vêm
sendo utilizados, como MDMA, A, E, I X, XTC e ADAM.
Uma questão que merece atenção é a pureza e a composição dos comprimidos.
Ao longo dos anos, o êxtase teve acrescida a sua composição uma série de substâncias.
Um comprimido dessa droga pode conter quantidades variáveis de MDMA,
além de poder incluir outras substâncias, como MDA, MDEA, metanfetamina, anfetamina,
cafeína, efedrina e LSD.

Características gerais da MDMA

A MDMA é uma droga classificada como perturbadora, que tem atividade estimulante
e alucinogênica (embora muito menos intensa quando comparada à maioria
das drogas alucinógenas). O uso recreativo da droga geralmente é feito com um ou
dois comprimidos, ou seja, doses que variam de 75 a 150mg, podendo haver doses
subseqüentes horas após o uso. Seus efeitos podem durar até 8 horas. Logo após a
ingestão, a MDMA distribui-se amplamente pelo organismo, chegando ao cérebro.
Sua metabolização é realizada principalmente no fígado e sua eliminação ocorre
através da urina, sendo concluída após aproximadamente dois dias.

Efeitos físicos e psíquicos 
Efeitos agudos

A droga apresenta efeitos semelhantes aos estimulantes do sistema nervoso central
(agitação), bem como efeitos perturbadores (mudança da percepção da realidade).
Seus efeitos mais marcantes são a sensação de melhora nas relações entre as pessoas,
o desejo de se comunicar, melhora na percepção musical e aumento da percepção
das cores. À semelhança de outras drogas psicotrópicas, os efeitos do êxtase dependem
do local e do que acontece no momento do uso. O ambiente mais comum para
o consumo é o de clubes noturnos e em raves, cujo cenário é enriquecido com jogos
de luzes e música eletrônica. Além disso, a MDMA faz com que as pessoas consigam
se perceber melhor e a gostar mais de si mesmas.
O êxtase causa, também, diminuição do apetite, dilatação das pupilas, aceleração
do batimento cardíaco, aumento da temperatura do corpo (hipertermia),
rangido de dentes e aumento na secreção do hormônio antidiurético.

Efeitos residuais

Efeitos residuais são aqueles que perduram dias após o uso de uma droga. Muitos
usuários relatam ter um episódio depressivo nos dias após o uso do êxtase, o que é
chamada de depressão de meio de semana. Fadiga e insônia também são comuns.

Principais complicações decorrentes do uso

O uso de êxtase é geralmente seguido de um grande esforço físico, devido a uma
prática vigorosa da dança. Essa associação (esforço físico e êxtase) tende a aumentar
consideravelmente a temperatura, que pode atingir mais de 42ºC e, inclusive,
ser mortal.
Uma das complicações mais curiosas, no entanto, é a da intoxicação por água.
Com o aumento da temperatura, a ingestão de água torna-se uma necessidade. Mas,
quando isso acontece de forma excessiva, a água pode começar a se acumular no
organismo, uma vez que o êxtase também dificulta a eliminação dos líquidos do
corpo (aumenta a liberação do hormônio antidiurético). Dessa forma, a ingestão
excessiva de água pode se tornar perigosa, inclusive fatal.
O êxtase também pode causar disfunção do sistema imunológico, sendo esse
quadro agravado quando há associação dessa substância com o álcool. Há também
um curioso, porém significativo, ranger de dentes que pode ocorrer nos usuários da
MDMA. Esse quadro é mais acentuado nos dentes posteriores e pode, inclusive,
persistir após o uso da droga.
As pessoas que usam o êxtase com freqüência podem começar a apresentar problemas
no fígado, como diminuição da capacidade de o fígado funcionar, e ficar
com a pele amarelada (icterícia). Problemas cognitivos (aprendizagem, memória,
atenção) podem surgir com o uso repetido por período prolongado.
O êxtase também pode desencadear problemas psiquiátricos, como quadros
esquizofreniformes (formas de loucura), pânico (estados de alerta intenso, com
medo e agitação) e depressão. Esses problemas têm maior ou menor probabilidade
de ocorrer, dependendo das características da pessoa, do momento de sua vida, da
freqüência e do contexto de uso.

Consumo no Brasil

Embora ainda tenham sido realizados poucos estudos sobre a situação brasileira,
existem indícios de uma popularização do uso recreativo da droga em alguns segmentos
da população, especialmente em algumas capitais brasileiras.
No entanto, o consumo de êxtase parece estar principalmente associado à música
eletrônica e a um contexto de festa e dança, e mais restrito aos jovens de classes
sociais privilegiadas (alta e média-alta).
Com o aumento do consumo, tem crescido também o número de apreensões da
droga pela polícia, bem como os registros de mortes associadas ao consumo de êxtase
no Brasil.

ANTICOLINÉRGICOS


Plantas: Datura, Lírio, Trombeta,
Trombeteira, Cartucho,
Saia-Branca, Zabumba
Medicamentos: Artane®,
Akineton®, Bentyl®


Definição e histórico

Em 1866, um médico da Bahia descreve o seguinte quadro em dois escravos: Fui
chamado a visitar estes doentes no dia seguinte às 8 horas da manhã. Já podiam caminhar,
mas estavam ainda trôpegos e hallucinados, vendo objetos himaginários, phantasmas,
ratos a passear pela camara etc., de que procuravam fugir dirigindo-se para a porta.
Ambos tinham as pupilas dilatadas... a boca e faces nada oferecem de notável... Na panela
que servia para vazer o cosimento estavam dous ramos com muitas folhas e algumas
flores rudimentares, de uma planta que conheci ser trombeteira (Datura arborea, Lin).
Em 1984, um jovem advogado de São Paulo narrou sua experiência após ingerir
chá de saia-branca: Os sintomas iniciam-se cerca de 10 minutos mais tarde com queixas
de não enxergar direito, vendo tudo embaraçado e fora de foco. As pupilas estão totalmente
dilatadas. Seguem-se alucinações terrificantes, visão de animais e plantas ameaçadoras,
cadáveres de índios, pessoas etc. Algumas horas mais tarde relata que perdeu o
pulso e engoliu a língua sendo levado para o pronto socorro.
Ainda em uma manhã de 1989, um menino de rua com as pupilas muito dilatadas
descreveu o que sentia após tomar 10 comprimidos de Artane® (medicamento
à base de triexafenidila, utilizado para mal de Parkinson, mas usado como droga
de abuso devido as suas propriedades em produzir alucinações): via elefante correndo
pela rua e rato saindo do buraco, se olhava para o céu via estrelas de dia. Tava tudo
embaçado e dava medo, mas era também bonito.
Conforme pode-se ver pelas descrições acima, tanto o chá da planta como o
medicamento Artane® foram capazes de produzir dilatação das pupilas (midríase) e
alterações mentais do tipo percepção sem objetivo (ver ratos, índios e estrelas quando
esses objetos não existiam), isto é, alucinações.
O que existe de comum entre a planta trombeteira ou lírio e o medicamento
Artane® para produzir efeitos físicos e psíquicos semelhantes? É que duas substâncias
(atropina e/ou escopolamina) sintetizadas pela planta e o princípio ativo (triexafenidil)
do medicamento produzem um efeito no organismo que a medicina
chama de efeito anticolinérgico. E sabe-se que todas as drogas anticolinérgicas
são capazes de, em doses elevadas, além dos efeitos no corpo, alterar as funções
psíquicas.

Efeitos no cérebro

Os anticolinérgicos, tanto de origem vegetal como os sintetizados em laboratório,
atuam principalmente produzindo delírios e alucinações. São comuns as descrições
pelas pessoas intoxicadas de se sentirem perseguidas, de verem pessoas e bichos etc.
Esses delírios e alucinações dependem bastante da personalidade do indivíduo e de
sua condição; assim, nas descrições de usuários dessas drogas, encontram-se relatos
de visões de santos, animais, estrelas, fantasmas, entre outras imagens. Os efeitos
são bastante intensos, podendo demorar de 2 a 3 dias. Apesar disso, o uso de
medicamentos anticolinérgicos (com controle médico) é muito útil no tratamento
de várias doenças (Parkinson, diarréia etc.).
Os solventes são as drogas mais usadas entre os meninos(as) de rua e entre os estudantes
da rede pública de ensino, quando se excluem da análise o álcool e o tabaco.

Efeitos sobre outras partes do corpo

As drogas anticolinérgicas são capazes de produzir muitos efeitos periféricos além
dos provocados no sistema nervoso central. Assim, as pupilas ficam muito dilatadas,
a boca seca e o coração pode disparar. Os intestinos ficam paralisados – tanto
que eles são usados medicamente como antidiarréicos – e a bexiga fica “preguiçosa”
ou há retenção de urina.

Efeitos tóxicos

Os anticolinérgicos podem produzir, em doses elevadas, grande elevação da temperatura,
que chega às vezes até 40 ou 41ºC. Nesses casos, felizmente não muito
comuns, a pessoa apresenta-se com a pele muito seca e quente, com vermelhidão
principalmente no rosto e no pescoço. Essa temperatura elevada pode provocar
convulsões (“ataques”) e são, por isso, bastante perigosas. Existem pessoas também
que descrevem ter “engolido a língua” e quase se sufocarem por causa disso. Ainda,
em casos de dosagens elevadas, o número de batimentos do coração sobe exageradamente,
podendo ultrapassar 150 batimentos por minuto.

Aspectos gerais

O abuso dessas substâncias é relativamente comum no Brasil. O Artane® chega a ser
a terceira droga mais usada entre meninos de rua de algumas capitais no Nordeste
(depois dos inalantes e da maconha). Nas demais regiões, o uso de anticolinérgicos
é bem menos freqüente.
Essas drogas não desenvolvem tolerância (necessidade de aumento de dose
para sentir os mesmos sintomas prazerosos iniciais) no organismo e não há descrição
de síndrome de abstinência, ou seja, quando a pessoa pára de usar abruptamente
essas substâncias, não apresenta reações desagradáveis.